Há um número que quase ninguém conhece sobre si próprio, mesmo sabendo, com alguma precisão, quanto ganha por mês. Perguntas a alguém quanto é o seu salário, e a resposta vem rápida, quase automática. Perguntas quanto deve, ao todo, e o silêncio que se segue diz tanto quanto qualquer número diria. Não é que a pessoa não saiba nada, sabe da prestação do carro, sabe mais ou menos do cartão de crédito, sabe que ainda falta pagar aquele crédito pessoal de há dois anos. O que falta não é informação. É a soma.
E essa soma pesa mais do que parece. 10.000€ de dívida, com uma taxa de 10%, pagos ao longo de dez anos, não custam mil euros de juro por ano e mais nada. Custam, ao todo, quase 59% do valor pedido emprestado, só em juros, antes sequer de contares o resto. É esse tipo de número que este capítulo te convida a ires buscar, o teu, não o exemplo de ninguém.
Quanto deves? A maioria de nós sabe mais ou menos quanto ganha, mas quase ninguém sabe, ao cêntimo, quanto deve no total, e muito menos para perguntar porquê. Este capítulo não julga a dívida que tens, só te convida a olhar para ela de frente, uma vez, com números reais.
Porque Evitamos Fazer Esta Conta
Já sabes, dos capítulos anteriores, que o teu custo de vida é um espelho, e que o mesmo vale para as pequenas despesas vistas ao ano. A dívida devia funcionar da mesma forma, é só mais um número a somar. Mas na prática, não é assim que a maioria de nós a trata.
O cartão de crédito fica num sítio. O crédito pessoal, noutro. O que falta pagar do carro, nem sempre entra na conta. Cada um destes números, visto isoladamente, parece pequeno e gerível. É só quando os juntas todos, num único valor, que a dívida ganha o peso real que sempre teve. E é precisamente por isso que a maioria de nós nunca faz esta soma, porque o número separado é mais confortável do que o número junto, mesmo sendo exatamente a mesma dívida.
Não é falta de capacidade para somar. É a forma como a mente se protege de ver algo de uma vez só, quando vê-lo espalhado dói menos.
Nem Toda a Dívida Pesa da Mesma Forma
Antes de somares, vale a pena perceberes que dívida não é uma coisa só. Um crédito habitação, com uma taxa baixa e um prazo de décadas, não tem o mesmo peso que um cartão de crédito por pagar, com uma taxa que pode passar dos quinze ou vinte por cento ao ano. O problema nunca foi teres dívida. Foi nunca teres parado para perceber quanto cada uma delas custa, de verdade.
Há três formas de dívida que vale a pena distinguires. A dívida com prazo longo e taxa baixa, como um crédito habitação, que financia algo que já tens e que continuas a construir. A dívida de médio prazo, como um crédito pessoal ou automóvel, com uma taxa mais alta, mas ainda com um fim à vista. E a dívida silenciosa, o cartão de crédito não pago na totalidade, que continua a crescer todos os meses, disfarçada de prestação mínima pequena, enquanto os juros comem uma fatia cada vez maior do teu rendimento.
Não é sobre teres medo de nenhuma delas. É sobre saberes qual é qual, porque mil euros num crédito habitação e mil euros num cartão de crédito não são, de forma nenhuma, os mesmos mil euros.
A Rita e o Miguel
Imagina duas pessoas, cada uma com um crédito habitação de 150.000€, com uma taxa de 3,5%. Até aqui, estão exatamente no mesmo sítio, os dois a construir, aos poucos, algo que vai ser deles.
A Rita fica por aqui. É a única dívida que tem.
O Miguel, para além da casa, tem um crédito do carro (12.000€, a 8%, a cinco anos), o telemóvel a prestações (800€, a 15%, a dois anos), e um saldo por pagar no cartão de crédito (1.500€, a 18%). Somadas, estas três prestações saem-lhe da conta todos os meses, carro, telemóvel, cartão, num total de cerca de 357€ por mês.
Do que parece, à primeira vista, só das as prestações normais, quase 100€ por mês são só juro, dinheiro que não reduz nem um euro do que o Miguel deve, só paga o direito de continuar a dever. Ao longo do primeiro ano, isso são quase 1.200€ que desaparecem, sem nunca tocarem no valor principal das três dívidas.
Repara no que este número esconde. Não é sobre não teres o carro, o telemóvel, ou aquilo que compraste com o cartão. É sobre a diferença entre teres essas coisas agora, a pagar juro por isso, ou teres a opção de as adquirires um pouco mais tarde, sem essa fatia a desaparecer todos os meses. Porque se este padrão se repetir, ano após ano, ao longo de uma vida inteira de trabalho, o que parecia ser só 100€ por mês transforma-se em algo bem maior. Os mesmos 1.200€ por ano, repetidos ao longo de quarenta anos de trabalho, somam quase 48.000€ pagos só em juros, dinheiro que nunca comprou nada, nunca foi teu, só pagou o direito de continuares a dever.
Pensa no que são, na prática, 48.000€. É a viagem que adiaste todos os anos porque "não sobrava" para isso. É o carro melhor que continuaste a não ter, mesmo depois de o teres pago, várias vezes, em juro. É a almofada financeira que nunca chegaste a construir, não porque ganhasses pouco, mas porque uma fatia do que ganhavas ia, ano após ano, para algo que nunca viste nem sentiste, só para manteres dívidas pequenas vivas. Não é uma exceção, é a mesma decisão, repetida, silenciosamente, ano após ano, sem nunca sentires que estás a abdicar de nada, até já ser tarde para reparares no que perdeste.
Nenhuma das duas fez nada de errado ao comprar um carro ou um telemóvel. O problema não é ter as dívidas. É nunca as somares, e continuares a achar que o teu único crédito é o da casa, quando, na verdade, é só o maior de vários.
Crédito Habitação e Crédito de Consumo
Dois créditos com o mesmo valor em dívida podem representar duas realidades completamente diferentes, dependendo do que financiam. Vale a pena olhar para os dois lado a lado, não para dizer que um é bom e o outro é mau, mas para perceberes o que cada um te está, de facto, a dar em troca do que te tira.
O crédito habitação financia algo que continua contigo, mesmo enquanto o pagas. Cada prestação é, em parte, uma compra a prestações de algo que vais possuir por inteiro um dia, e que normalmente continua a ter valor, ou até ganha valor, ao longo dos anos. A taxa costuma ser das mais baixas que vais encontrar em toda a tua vida financeira, e o prazo longo dilui o peso mensal. Não é uma dívida leve, mas é uma dívida que constrói alguma coisa enquanto a pagas.
O crédito de consumo tem uma lógica diferente. Financia, muitas vezes, algo que já deixou de existir, ou de ter o mesmo valor, muito antes de a última prestação estar paga. As férias que fizeste no ano passado. O carro que já trocaste. O telemóvel que já perdeu a novidade. Continuas a pagar por algo que, na prática, já consumiste, o que significa que estás a financiar o passado com dinheiro do teu futuro. A taxa costuma ser bastante mais alta, e o prazo mais curto, o que concentra o peso mensal num período mais apertado.
Isto não significa que o crédito de consumo seja sempre um erro. Às vezes financia algo que precisavas mesmo, uma reparação urgente, uma emergência de saúde, uma máquina que avariou e que não podias substituir de outra forma. A diferença está em saberes, com clareza, o que cada crédito te está a comprar, se é algo que continua a existir e a valer a pena quando a dívida acabar, ou se é algo que já desapareceu há muito, e que só a prestação continua a lembrar-te que existiu.
O Motivo Por Trás da Dívida Que Nunca Mais Acaba
Há uma sensação comum a quem tem uma dívida de cartão de crédito ou crédito pessoal há algum tempo, a de pagar todos os meses e a dívida quase não descer. Não é impressão tua. É, muitas vezes, exatamente o que está a acontecer, e a razão chama-se juro.
O juro é, de forma simples, o valor que pagas, em percentagem, sobre o que ainda deves, todos os anos. Se deves 10.000€ euros com uma taxa 10%, esse dinheiro está, sozinho, a custar-te mil euros por ano, só para continuar a existir, antes sequer de começares a reduzir o valor em si.
Quando pagas a prestação mínima de um cartão de crédito, uma parte desse valor paga o juro que já se acumulou, e só o que sobra é que reduz, de facto, o que deves. Nos primeiros tempos de uma dívida a um juro alto, essa parte que sobra pode ser pequena, o que significa que estás a pagar mês após mês, e a dívida mal se mexe. Não é o teu esforço que falha, é a matemática por trás da prestação mínima, feita para que a instituição continue a receber juro o máximo de tempo possível.
É por isso que, entre duas dívidas do mesmo valor, a taxa de juro pesa mais do que o montante em si. 1.000€ a 5% ao ano e 1.000€ a 15% ao ano não custam o mesmo, mesmo sendo, no papel, exatamente a mesma dívida.
E este efeito não fica pelo primeiro ano. Se a dívida continuar por vários anos, o custo acumula-se, porque continuas a pagar juro sobre o que ainda falta, ano após ano. 10.000€ de dívida a 10% de taxa, pagos ao longo de dez anos, não te custam 1.000€ de juro. Custam-te cerca de 5.860€, quase 59% do valor que pediste emprestado, só em juros. Ou seja, cada 1€ emprestado custaria aproximadamente 1,59€. É por isso que o prazo importa tanto quanto a taxa, uma dívida mais longa dá mais tempo para os juros se acumularem, mesmo que a prestação mensal pareça mais confortável.
Não precisas de saber calcular isto sozinho, os simuladores fazem essa conta por ti. Só precisas de saber que uma taxa alta, mantida durante anos, pode custar-te mais do que a própria coisa que compraste.
O Exercício
Faz o que já fizeste no primeiro capítulo, só que desta vez com dívidas em vez de despesas. Escreve num papel o valor que achas que deves, ao todo. Depois, abre todos os extratos e soma tudo, sem exceção, mesmo o que preferias esquecer que existe.
Para a maioria das pessoas, tal como aconteceu com o custo de vida, a diferença entre o que achavam e o número real é um choque. Não é o objetivo assustar-te com isto. É o mesmo objetivo de sempre, sair do "à volta de" e chegar a um número que consegues, finalmente, usar.
O Que é Que Este Número Muda?
Lembra-te da margem livre, o valor que sobra depois de pagares tudo o que precisas para viver. É fácil olhar para essa margem e sentir que já tens algum controlo. Mas se uma parte significativa dessa margem está, sem reparares, a desaparecer todos os meses para juros de uma dívida para a qual nunca olhaste a sério, a margem livre que achavas ter nunca foi inteiramente tua.
É por isso que este capítulo não existe sozinho. Ele completa o primeiro. Só depois de saberes o que deves é que a tua margem livre significa mesmo alguma coisa, porque um número positivo no papel pode já estar comprometido antes de sequer o veres.
Não é sobre teres vergonha da dívida que tens. É sobre a veres, finalmente, tal como ela é, para que a próxima decisão que tomares, seja ela qual for, parte de um número real, e não de uma soma que nunca chegaste a fazer.
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