No capítulo anterior descobrimos os conceitos do teu custo de vida e da tua margem livre. Aprendemos a limpar o espelho! Contudo, há uma rasteira psicológica que o nosso cérebro nos prega constantemente e que nos impede de ver o tamanho real do buraco onde o nosso dinheiro cai: a escala do mês.
Fomos ensinados a gerir a vida em fatias de 30 dias. O ordenado cai ao mês, a renda pagas-se ao mês, e a água e a luz são, também, mensais. Focar a tua visão financeira apenas no mês atual é como conduzir numa autoestrada a olhar só para os dois metros de estrada mesmo à tua frente. Consegues desviar-te do buraco imediato, mas não fazes ideia do que vem na próxima curva.
A Armadilha do "É Só o Preço de um Café por Dia"
As equipas de marketing conhecem a nossa miopia financeira e usam-na a seu favor. Raras são as marcas que te mostram o custo total de um serviço. Pelo contrário, preferem dizer-te que a subscrição são "apenas 14,99€ por mês", ou que aquele plano custa "o equivalente a um café por dia".
Mensalmente, tudo parece razoável. 15€ não magoam ninguém, afinal, o salário caiu na semana passada, o cérebro relaxa, aceita o débito direto e esquece o assunto. O problema é que ninguém vive só um mês de cada vez.
O Peso do Ano: Onde os Pequenos Números Importam
Para começares a mandar no teu dinheiro, precisas de puxar o zoom atrás e olhar para as tuas contas à escala do ano inteiro. É aí que os números deixam de se conseguir esconder.
Pega na subscrição de streaming que já nem abres! Aqueles 15€/mês inofensivos, anualmente, são 180€ a sair diretamente da tua margem livre. E o almoço fora, que custa 12€ por dia, todos os dias úteis do mês, porque a marmita dá trabalho? Isso sobe o valor para, aproximadamente, 2.640€ por ano. Se te pedissem esse valor de uma vez só, num restaurante, no dia 1 de janeiro, a resposta, muito provavelmente, era não. Todavia, em fatias diárias, paga-se sem pensar duas vezes.
Mudar para a escala anual resolve ainda outro problema: elimina os falsos "imprevistos". O seguro do carro que chega em setembro, o IUC, a revisão e os presentes de Natal. Nada disto é uma surpresa! São certezas matemáticas, coisas que já sabes que vão acontecer. Quando planeadas com antecedência e divididas por 12, estas despesas deixam de ser um susto e passam a ser só mais uma linha no orçamento.
A Moeda Mais Valiosa: Quanto Custas em Horas de Vida?
Há um passo ainda mais profundo do que anualizar o dinheiro: perceber que o dinheiro nem sequer é a tua moeda mais valiosa. É o teu tempo!
Quando compras alguma coisa, não a estás a pagar em euros! Estás a pagá-la na quantidade de horas de vida que gastaste para ganhar esses euros. Imagina que, depois de impostos, o teu salário equivale a cerca de 7€ líquidos por hora e queres um telemóvel novo de 700€.
A pergunta mais honesta não é se tens os 700€ na conta à ordem, mas se estás disposto a passar 100 horas fechado(a) no teu trabalho, a cumprir ordens e a gastar energia, só para pagar aquele objeto. Duas semanas e meia da tua vida! Por vezes a resposta é sim, e não há problema nenhum nisso, mas passa a ser uma decisão consciente, e não um reflexo.
Aplica esta lógica ao teu custo de vida completo e o quadro ficará ainda mais claro. Se a tua vida custa 15.000€ por ano e o teu ordenado líquido é 1.200€/mês, isto significa que trabalhas de janeiro a outubro única e exclusivamente para pagar as tuas despesas e manter a tua estrutura atual. Na prática, só em novembro e dezembro é que, finalmente, trabalhas para ti!
O Caso do "Carro Barato"
O Pedro ganha 10€ líquidos por hora. Ele comprou um carro usado a crédito, a prestação ficou nuns "simpáticos" 150€ por mês e, nesta escala, parece-lhe um ótimo negócio.
Do ponto de vista anual, os 150€/mês somam 1.800€. A isto o Pedro tem de juntar o seguro (350€), o IUC (150€), a revisão (200€) e o combustível (1.100€). O custo anual real do carro passa a ser 3.600€. Como o Pedro ganha 10€/hora, isto equivale a 360 horas de trabalho por ano, ou seja, mais de dois meses inteiros, quase 45 dias úteis, só para manter o carro a andar.
E repara que isto nem sequer conta com a rasteira do crédito! Uma boa fatia dessas 360 horas não paga o carro em si, mas sim os juros e comissões ao banco. Há semanas inteiras, todos os anos, em que o Pedro se levanta para trabalhar, exclusivamente, para o lucro de outra entidade.
Antes de Abrires o Simulador
Faz esta conta rápida para descobrires a tua verdadeira moeda de troca: pega no teu salário líquido mensal e divide-o pelas horas que trabalhas por mês. Para quem tem um horário de trabalho de 40h/semana, ronda as 160h/mês. Guarda esse número!
Da próxima vez que fores comprar roupa nova, jantar fora, ou subscrever mais um serviço, divide o preço pelo teu valor à hora. É esse cálculo, feito uma ou duas vezes, que muda a forma como olhas para o preço de tudo o resto.